Ciúme, infelicidade e crime, por Luiza Nagib Eluf
Uma história de amor iniciada há quatro anos que terminou em
agressão e morte por ciúme excessivo. É assim que pode ser resumido o
relacionamento do corretor de imóveis Bruno César Augusto Ribeiro, 30
anos, com sua mulher, a ex-modelo Babila Teixeira Marcos, 24. Após uma
discussão regada a muita bebida alcoólica, Bruno matou Babila a facadas.
Um dos golpes desferidos esfacelou a maçã direita do belo rosto da
jovem, que jazia deitada na cama quando policiais entraram na casa do
casal no bairro do Jabaquara, em São Paulo. No quarto ao lado, o filho
de 2 anos dormia alheio à discussão dos pais. Bruno foi indiciado por
homicídio qualificado e motivo torpe na semana passada. O derradeiro
desentendimento do casal parecia apenas mais um entre tantos, geralmente
motivados pelo ciúme exagerado dele. Logo no começo do namoro, Bruno
proibiu Babila de seguir trabalhando como modelo. Não satisfeito,
escolhia as roupas que a mulher poderia vestir e a afastou dos amigos de
São Bernardo do Campo, município do ABC paulista onde ela nasceu e se
criou. “Ele a exibia como se fosse troféu. Um objeto que ele poderia
usufruir quando quisesse”, afirma o comerciante Alexandre Marcos, pai da
ex-modelo, que tem uma distribuidora de água mineral onde a filha
trabalhava.
Considerado por muitos o “tempero das relações”, o
ciúme é um sentimento comum a quase todos os humanos e pode até mesmo
ter desempenhado papel fundamental na evolução da espécie. Segundo
teorias da psicologia evolucionista, é uma característica biológica que
herdamos de nossos ancestrais, que usaram esse sentimento como um
mecanismo de sobrevivência. “As mulheres das cavernas sentiam ciúme de
seus machos para que eles não copulassem com outras fêmeas, o que
colocaria em risco a sua própria prole.
Já os homens usavam o ciúme como uma forma de garantir que a parceira
não geraria filhos de outros machos”, diz o psicólogo Thiago de
Almeida, especializado em relações difíceis e autor do livro “Ciúme e
Suas Consequências para os Relacionamentos Amorosos” (Editora Certa).
Dos primeiros enlaces românticos até hoje, o ciúme muitas vezes apareceu
atrelado a conceitos positivos, como zelo e proteção. A máxima de que
“quem ama cuida” é comumente citada pelos ciumentos para justificar seus
atos. “Porém, quando esse sentimento passa a ser um sofrimento muito
grande, a ponto de prejudicar a vida daquele que o sente, ou a de seu
parceiro, pode se tratar de um quadro de ciúme patológico”, alerta
Almeida.
"Ele a exibia como se fosse um troféu. Um objeto que ele poderia usufruir quando quisesse" Alexandre Marcos, pai de Babila, referindo-se ao marido da filha, Bruno César
PASSADO - Babila e Bruno: a relação sempre foi conflituosa
O retrato mais emblemático de ciúme doentio provém da literatura. No
clássico “Otelo – O Mouro de Veneza”, de William Shakespeare
(1564-1616), o general protagonista da história acredita piamente estar
sendo traído por sua esposa, Desdêmona. Cego pelo ciúme e pela raiva,
ele asfixia a mulher. Depois, no entanto, ao descobrir que ela não era
adúltera, tira a própria vida com um punhal e antes de morrer ainda
beija o corpo inerte de Desdêmona. A tragédia shakespeariana acabou por
batizar a condição chamada de ciúme patológico, também conhecida como
“síndrome de Otelo”. “Diferentemente do ciúme normal, o doentio não
precisa de uma motivação. Ele pode surgir sem que algo desencadeie uma
suspeita”, explica a psicanalista Tatiana Ades, autora dos livros
“Hades: Homens Que Amam Demais” e “Escravas de Eros” (Editora Isis). De
acordo com especialistas, há dois tipos mais comuns de ciúme (veja o
quadro abaixo). No ciúme normal, ou protecionista, o ciumento se sente
ameaçado por alguma situação ou por um rival em potencial e quer
proteger a relação ou a pessoa que ama. Já no doentio ou retaliador, o
medo de perder o ser amado faz com que a pessoa aja de forma punitiva,
sem considerar argumentos racionais. “O ciumento patológico acredita em
seus próprios delírios e essa autoilusão, em casos extremos, pode levar a
agressões ou até à morte”, diz Almeida.
A combinação de amor,
ciúme e tragédia, que sempre pontuou as crônicas policiais, também está
presente em outro caso recente que mobilizou o País. Em 16 de junho, a
policial federal Angelina Filgueiras, 42 anos, irmã da modelo Ângela
Bismarchi, morreu com um tiro no peito durante uma discussão entre ela, o
namorado, Jolmar Wagner Alves Milato, 40, e o ex-marido, o capitão
reformado da Marinha Márcio Luiz Dias Fonseca, 48, que também faleceu.
Segundo o advogado de defesa de Milato, o ex-marido de Angelina não
aceitava o fim do casamento e teria feito ameaças a ela e a seu cliente,
antes de entrar armado na casa dela naquela noite. Desesperada pela
briga entre os dois, Angelina atirou em si mesma, e Milato, agindo,
conforme alega, em legítima defesa, disparou três vezes contra Fonseca.
Parentes da vítima disseram que o sentimento que Fonseca nutria por
Angelina era doentio. “Quem sofre de ciúme patológico acaba se tornando
uma marionete dos próprios sentimentos, mas a violência é um processo
cumulativo”, explica Almeida. “Quando o cônjuge aceita uma reação
violenta ou uma agressão psicológica do ciumento, acaba reforçando esse
comportamento.”
A escalada de agressões verbais, psicológicas e
físicas é bem conhecida da enfermeira Bernadete Segatto, 50 anos. Na
semana passada, ela chegou à Primeira Delegacia de Defesa da Mulher, em
São Paulo, munida com quase uma dezena de Boletins de Ocorrência (BO)
contra o ex-namorado, Robert de Lima Fonseca, 48 anos. Os documentos
relatam parte da história do casal, que começou há quase três anos e
teve várias idas e vindas até o fim definitivo, em novembro do ano
passado. Bernadete conta que Fonseca a agride desde o início do
relacionamento. “Sempre que acontecia, eu terminava o namoro, mas ele ia
atrás de mim e me ameaçava. Eu não voltava por amor, voltava por medo”,
diz. Conforme relato da enfermeira, Fonseca a agrediu fisicamente
várias vezes, a jogou de um carro em movimento, a prendeu em cárcere
privado, a estuprou quando ela tentou terminar a relação e ameaçou os
filhos dela, que hoje vivem com o pai por determinação do Ministério
Público. Tudo por ciúme. “Enquanto eu estava com ele, era proibida de
trabalhar, de fazer esportes, de qualquer coisa. Ele sempre me acusava
de estar tendo um caso com alguém, fosse o professor da academia ou o
pastor da igreja. Uma vez ele cortou meu cabelo para tentar me deixar
mais feia”, diz.
"Quando cheguei, mal abri a porta e ela veio com o ferro de
passar quente na minha direção. Me defendi, mas ela continuou a agressão
verbal e física" F., 40 anos, que se divorciou depois de um ataque de ciúme da mulher
No caso da bela modelo morta em São Paulo, o histórico de violência
de Bruno contra Babila era antigo. Há três anos, a jovem ligou certa
noite para a mãe, Rosana Marcos, dizendo que estava trancada no
banheiro, pois Bruno a ameaçava com um revólver 38 em punho. O caso
acabou no 35º DP (Jabaquara), onde a mulher desistiu de prestar queixa. O
casal reatou após poucos meses de separação. Uma semana antes de ser
assassinada, Babila revelou a familiares o desejo de se separar por
conta do ciúme excessivo do marido, que engendrava uma rotina de brigas.
“Ela apenas estava esperando passar o batizado e o aniversário do filho
para tomar a decisão”, revela a mãe. Dias antes da tragédia, Bruno
chegou a ameaçá-la dizendo que a mataria junto com o filho se ela o
abandonasse. Na noite do crime, os policiais encontraram o carro da
vítima, um Astra Wagon, na garagem, com os vidros abertos e a chave na
ignição. Uma mala estava repleta de roupas da criança e ainda continha
todos os documentos de Babila, que recebeu várias facadas nas costas,
segundo apurou ISTOÉ. “É um erro da vítima subestimar as intenções do
agressor. Em casos de violência doméstica, é mais do que necessária a
intervenção policial”, afirma a delegada Lisandrea Zonzine Salvariego
Colabuono, responsável pelo inquérito policial do caso e titular da 2ª
Delegacia de Defesa da Mulher. Em metade dos casos de homicídio de
mulheres havia denúncia de violência daquele agressor anteriormente,
segundo o Mapa da Violência 2012.
Tanto
homens quanto mulheres podem sofrer de ciúme patológico, porém são elas
as vítimas mais frequentes de agressões de parceiros ciumentos. De
acordo com a Pesquisa DataSenado 2011,
em 27% dos casos de violência doméstica registrados no Brasil a
agressão foi motivada pelo ciúme. No mesmo ano, em um levantamento do Instituto Avon,
48% das entrevistadas que declararam ter sido vítimas de violência
grave disseram que esse sentimento de posse foi o fator responsável pela
agressão. “Apesar de todos os avanços na questão dos direitos
femininos, infelizmente vivemos em uma sociedade ainda muito machista,
em que a mulher muitas vezes é vista como uma propriedade privada de seu
namorado ou marido”, diz Tatiana Ades. “Por isso é mais difícil para os
homens aceitar quando uma mulher quer terminar um relacionamento.” Isso
não significa, contudo, que elas sejam menos ciumentas, e sim que o
sentimento se manifesta de forma diferente. “Homens tendem a sentir mais
ciúme sexual, enquanto as mulheres ficam mais enciumadas ao pensar que
seus namorados ou maridos podem estar emocionalmente envolvidos com
outra”, diz Almeida. “E as mulheres são mais sutis na hora de demonstrar
ciúme”, diz Tatiana.
Hoje casada e mãe de uma filha de 4 anos, a
relações-públicas M., que pediu para não ser identificada, chega a
sorrir ao se lembrar do namorado por quem foi “loucamente apaixonada”
aos 19 anos. Depois das brigas constantes, ela fazia plantão na portaria
da casa do namorado e se jogava em frente ao carro dele para obrigá-lo a
parar e conversar. Quando ele a deixava em casa depois de uma festa,
imediatamente uma amiga era acionada para persegui-lo e, assim,
descobrir se ele realmente foi para casa ou se iria se encontrar com “a
outra”, a suposta amante que nunca foi flagrada. Essa relação complicada
durou dois anos e terminou quando ela percebeu quanto ficava fora de si
diante do namorado. “Foi um período conturbado, mas serviu de lição,
aprendi o que não queria para a minha vida. A questão não é o tamanho do
amor, mas sim a forma como o direcionamos”, avalia.
"Sempre que ele me agredia, eu terminava o namoro, mas ele
vinha atrás de mim e me ameaçava. Eu não voltava por amor, voltava por
medo" Bernadete Segatto, 50 anos, que pede na Justiça medidas protetivas contra o ex-namorado Robert de Lima Fonseca
O fato de a maior parte dos crimes motivados por ciúme ser cometida
por homens pode ser explicado pela alta impulsividade deles, na opinião
do psiquiatra forense Miguel Chalub. “Homens são mais agressivos e mais
inseguros de sua performance sexual, o que os torna mais propensos a
sofrer com o ciúme doentio”, diz Chalub. “Por isso, quando uma mulher
agride ou mata o cônjuge por ciúme, a sociedade fica escandalizada.” O
administrador de empresas F., 40 anos, que pediu para não ser
identificado, sofreu na pele com uma ciumenta patológica. O namoro e o
casamento foram tranquilos até que ele, em um novo emprego, começou a
trabalhar até tarde da noite. “Era um tormento, ela dizia que eu tinha
um caso com alguma mulher do trabalho e, com o tempo, isso foi
crescendo. Ela criava situações na cabeça dela e acreditava naquelas
fantasias todas”, conta. Enciumada, ela ligava para o ramal dele várias
vezes ao dia para conferir se o marido realmente estava trabalhando. Até
o dia em que ele não atendeu – já estava a caminho de casa. “Quando
cheguei, mal abri a porta e ela veio com o ferro de passar quente na
minha direção. Me defendi, mas ela continuou a agressão verbal e física.
Para não perder a cabeça, saí de casa naquela noite.” No dia seguinte,
outra surpresa. Todas as roupas, CDs e livros de F. estavam rasgados e
quebrados em uma pilha no meio da sala. “Foi o estopim para o divórcio”,
diz.
Paradoxal como grande parte dos sentimentos humanos, o
ciúme em demasia também pode significar desejos ocultos da própria
pessoa. “Muitas vezes aquele que sente ciúme exacerbado está projetando
no parceiro algo que ele mesmo faz ou gostaria de fazer”, afirma a
psicanalista Tatiana. “Já vi vários casos de homens ciumentos que eram
eles próprios os infiéis.” Foi o que aconteceu com a escritora
catarinense Vanessa de Oliveira, 37 anos. Há dois anos ela conheceu por
meio de uma amiga aquele que parecia ser o grande amor de sua vida. “Ele
era calmo, educado, gentil. Um príncipe encantado”, conta Vanessa.
Durante os primeiros seis meses em que viveram juntos, tudo correu bem.
Até que ele começou a revelar seu lado ciumento. “Ele me ligava o dia
inteiro para saber onde eu estava e passou a me tratar mal por ciúme dos
outros funcionários do shopping onde tínhamos uma loja”, diz. Um dia,
Vanessa descobriu que, apesar de ser extremamente ciumento, o marido
mantinha relacionamentos paralelos com diversas mulheres e até era
casado legalmente nos Estados Unidos com outra brasileira. “Quando o
confrontei com a verdade, ele me agrediu, quebrou minhas coisas, me
expulsou de casa e até me ameaçou de morte.” A história de decepção
rendeu o livro “Psicopatas do Coração” (Editora Matrix), lançado no
início do ano. “Hoje estou recuperada, mas ainda me assusto quando vejo
fotos da época em que vivia com ele. Eu parecia outra pessoa, até tinha
mudado meu jeito de vestir em função dele”, diz.
Mesmo que nem
todos os ciumentos excessivos sejam infiéis ou desejem ser, algumas
características se repetem nos perfis daqueles que padecem dessa
condição. Em comum, homens e mulheres que sofrem de ciúme patológico
apresentam sinais de alta ansiedade, pouca tolerância à frustração e
baixa autoestima. “A maioria carrega uma sensação de rejeição que vem da
infância”, explica Tatiana Ades. Opinião compartilhada por Chalub.
“Esse sentimento está ligado a transtornos de personalidade,
especialmente entre os homens. Quando um homem não recebe afeto
suficiente da mãe quando pequeno, as chances de ele se tornar um
ciumento em excesso são grandes.” Outros distúrbios psicológicos, como
paranoia e transtorno obsessivo compulsivo, também são geralmente
associados ao ciúme em demasia. “O problema do ciumento patológico é com
ele próprio, e não com seu parceiro ou parceira”, diz Tatiana.
SUICÍDIO - A policial federal Angelina Filgueiras se
matou diante de uma discussão entre o namorado, Jolmar Milato, e o
ex-marido Márcio Luiz Fonseca, que não aceitava o fim do casamento
A boa notícia é que existem grupos que podem ajudar essas pessoas a
controlar o sentimento. O Mada (Mulheres Que Amam Demais Anônimas), que
existe há 18 anos no Brasil, acolhe mulheres que se encontram em
relações destrutivas. “Ter ciúme é uma característica comum de todas
nós, mas apenas algumas apresentam um quadro de ciúme patológico”, diz
uma integrante do grupo. Seguindo uma versão adaptada dos 12 passos do
grupo Alcoólicos Anônimos (AA), as mulheres do Mada, que possui mais de
30 pontos de encontro pelo País, procuram evitar os comportamentos
destrutivos, um dia de cada vez. “Através do depoimento das outras
mulheres, consigo aprender algo sobre mim mesma e manter sob controle
meus sentimentos.” A mesma filosofia move o grupo de apoio aos ciumentos
patológicos do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas
(HC), em São Paulo. O serviço é gratuito e destinado a homens e
mulheres. “O objetivo é melhorar a autoestima e ajudar a controlar o
comportamento de ciúme daqueles que buscam ajuda”, explica Mônica
Zilberman, coordenadora do projeto. “Não falamos em ‘cura’ até porque
não se trata de uma doença em si, mas de um sintoma que pode estar
exacerbado até em pessoas sem transtorno psiquiátrico.”
No caso
de Babila, tal qual Otelo, Bruno buscou no suicídio a forma de lidar com
sua culpa. Cortou os pulsos e o pescoço, mas não obteve sucesso porque o
irmão adolescente, que morava com o casal, chegou minutos depois do
assassinato da jovem. Até a sexta-feira 13, Bruno continuava internado
em estado grave no Hospital Saboya, no Jabaquara, sob escolta policial.
“O amor dos dois era doentio, obsessivo. Ambos eram muito ciumentos. Mas
ninguém esperava que fosse acabar assim”, diz um amigo do casal. Como
disse o poeta espanhol Lope de Vega (1562-1635), “não existe glória
maior do que o amor, tampouco castigo maior do que o ciúme”.
PERIGO - O ciumento patológico acredita em seus delírios e isso
pode levar a agressões ou até à morte, diz o psicólogo Thiago de Almeida


Acesse em pdf: O lado trágico do ciúme (IstoÉ - 13/07/2012) ou no próprio site |